domingo, 27 de abril de 2008

um

(As flores do lago e o buraco do espelho: a tentativa de transcender a metafísica barata das salas de espera e dos hospitais psiquiátricos através da mais intrínseca realidade paralela)

E todo um blá blá blá cheio da própria metafísica barata. Eugênio, o bravo, entrou no bar. Como de costume, pediu aquela mesma dose, a mesma marca, cor. Sentou-se no mesmo banco que sentava-se tinha dias. Escrever é um ato de imanência, pensamos, eu e ele. Ele, instável, sentado estavelmente em um banco duro. Seria aquele realmente o modo mais elegante de sua vida? O líquido marrom sangueado, o amargo na garganta, nuca, olhos, talvez na lembrança.

Ela.

Estaria ela ainda no mesmo sofá? Branco, cor de sangue. Ela, espera.

O que veria quando acordasse? Como um sonho, sua realidade estava prestes a se fragmentar nos véus: jamais encontraria sentido depois. Fazia tanta diferença assim?

O dia, amanhecendo com o sabor aromático da aurora. A noite, pálida, surgindo nos dias passando: calor do tempo que submetia a tudo. E ela. Ainda, esperando, a grande ruptura: no vácuo, a ausência completa dos seus sentidos... espera... Eugênio vislumbrava ainda seus ruivos pelos púbicos, esperando a imagem se acalmar naturalmente: não queria que seu querer se intrometesse na imagem. Fez isso durante anos de sua vida e nunca funcionou - tampouco esperava que funcionasse agora, mas continuava, como um menino obediente ao molhar com cuidado os lábios na sopa quente.

As vezes sinto que só me resta a solidão incerta de meu último grito. Quando eu não posso chove e quando eu posso as coisas nunca fazem sentido. Eugênio pensando.

Num repente, come agora seu próprio grito: ela se levantara, ele tinha certeza. Andava semi nua entre os móveis, tinha certeza, ela andava, agora rumo ao banheiro, um tanto zonza pelo efeito do narcótico, tateando mentalmente a si mesma. Um buraco no meio do espelho, a mesma dose de sempre, sempre mais, sempre mais, Eugênio, o bravo herói da primavera fatídica que se desdobrou por noites a fio. Sem um menor ruído o sangue, o pus, a lama e o prédio abaixo: com o maior estrondo do mundo, ela semi nua volta ao sofá. Não, ela estava apenas sonhando em se mover: o buraco do espelho se movendo com ela.

Uísque no bar

Cocaína e amargo

Uma tentativa mais

Ligaria?

Esperaria ela pelo final?

Sem mais nada, Eugênio paga pela sua dose e irrompe, o fora: precisava apenas de ar. As ruas beira-mar frias, embora aparentemente agradáveis aos passantes, pareciam sempre prontas a lhe rejeitar. Um grupo de jovens brincando nos trapiches e nas estátuas. Droga, mais uma noite. Sereno, galpões de hotéis. Piano e músicas sutis.

Ela...agora então entre o sofá e o buraco: entre a sanidade e a transcendência a todo e qualquer tipo de juízo: é claro que ela não vai mais voltar.

O vermelho de seus pelos púbicos, o gosto de sexo presente desde sempre nos lábios quentes e vermelhos, o vermelho de sua face, cabelos, olhos, ela e o mais constante e esmagador vermelho que se poderia imaginar: jamais foi um céu azul.

Eles não tardarão a abrir a porta.

Ela chorará? Partirá ao meio? Amaldiçoará talvez, com sua voz áspera e severa: mas senil. Cada vez mais senil, ah, como isso pode ser irritante, ela não pode, é isso: ela simplesmente não pode, e não poderá então nunca: é esse o preço, o preço dela, que ela pagou. A escolha é dela, dela, só dela. Não, não minha, Eugênio, nunca: a culpa o preço a carga a responsabilidade é só dela. O uísque, o isqueiro vermelho em cima do balcão, raios, o mundo todo parece vermelho agora. E eles não tardarão. E se ele corresse? Mas não havia voltas. O diagnóstico seria feito de qualquer maneira: o mundo saberia, afinal. Todos eles. E só restaria então para ela sua cor, como pano de fundo e mobília. Mas raios, ela lembraria, saberia? Não, é preciso se conformar, não mais existirá “ela”, ela se fundirá para sempre em um mundo de relações possíveis, e cada vez mais, até o sempre, diluída numa massa de tons vermelhos se tornando cada vez mais homogênea, até o nunca, seu próprio mundo.

Remédios, ela encontrará alívio? Redenção?

Eugênio para e pensa, gira o líquido no copo, quase bebe, para, bebe: como reagirá a sua visita? Será hostil? Não, é preciso se conformar: não haverá mais ela.


Entre o sofá e o buraco do espelho: entre a cama e o hospital, o mundo e o berço, o asilo de leprosos e a mais sórdida blasfêmia que a mente humana pôde imaginar, loucura, porque tens tais faces? Raios, é preciso tentar sempre: mas o forte se conforma. E antes mesmo de raiar o dia Eugênio volta ao apartamento. Centrímetos em deslocamento espacial dos objetos indicariam algo como uma pequena porém resignada resistência. Sangue no chão do banheiro e o espelho enfim quebrado: a banheira cheia de água limpa, um banho que não aconteceu?

O telefone toca, sua voz rouca e doída: ela existia ainda? Não, foi apenas um sonho. E como um surto ele também pôde perceber que não importava o quanto estava livre: também para ele a realidade não fazia nenhum sentido. Porque haveria ela quebrado o espelho antes de partir? Um ato último de revolta?

Trêmulo, o forte vai até o espelho e não vê o rosto, o buraco ou o vazio, mas apenas a si mesmo. Contendo-se para não explodir, sente subindo do estomago a mais visceral e fatídica onda de riso: um riso incontido, doído, trêmulo e libertador, insano. Insano, o forte ria e do seu riso toda a realidade também se fragmentou: era preciso rir mais alto, com fúria, era preciso com seu riso destruir as paredes e degolar vizinhos, os cães, os fortes. E através de seu riso toda a loucura de Ofélia também fazia sentido, pois era a sua loucura, sempre foi sua, talvez apenas sua.


Há mesmo de se ser muito Forte.

domingo, 6 de abril de 2008

A metafísica de Ofélia (Um segredo muito mal vislumbrado)

Bate a porta. Distante, despe-se imersa em si; lenta e quase covarde despe-se de cada um dos véus. A água morna, um pássaro sempre longe demais: assistira antes do começo o fim do filme, e algo estava confuso demais até para o não ter mais sentido. Com a ponta dos pés experimenta a água, água quente, conforto e debilidade. Despe-se por fim do último véu: imerge.

Submerge, os olhos fechados firmes como criança, a cabeça para trás num mergulho denso. Os dedos das mãos sobre as águas, quantas formas, quantas se pode ter, quantidades, sim, razão e quantidades: e, no entanto, que é ela, senão pura espera? Uma pandora assustada, como outra qualquer. Mesmo se em tantos véus.

Bate a porta. Um ruído, um gato esgueirando-se pelas frestas desde sempre. Dias sem vontade, dor muda e opaca, mas desde sempre presente: não podia, sabia, sempre soube. Não podia mais estar a mercê de um sorriso. Tinha sonhos bonitos, as vezes, quando podia enfim ser livre, quando podia ser quase sem véus. Quase sem nenhum véu. Um tiro ao fundo, a noite acontecendo em todos os lugares, em todas as frestas de gatos e coisas, e coisas que nunca se mexem, e coisas que embora existam nunca acontecem, mas, acima de tudo, essa falta, a presença inerte de uma ausência. Droga, mesmo sem os véus, mesmo sem as tipóias, mesmo em nada, vazio-preenchimento de danaides. Preciso me livrar dos mitos.

Na estante, uma athena furiosa, mulher da guerra e da ciência, esquecida, prestes a sucumbir frente as cores da caixa recém aberta. Uma ou outra minerva prestes a explodir, tristes canções que vão sendo apagadas, uma historia toda eternamente por ser feita e já vindo assim, tão mal-acabada! Ela colocaria de novo cada letra no seu lugar, arrumaria todas na estante dos saberes inúteis que são feitos para se renovar sempre, sim, ela poderia continuar para sempre arrumando as coisas que precisam ser arrumadas, limparia sempre o redemoinho das cores, ah, bem que existir poderia não ser tanta bagunça! Presença assexuada na sala, um sapo-rã se arrasta, enfim: é um conto de fadas. Transborda com a água para longe, sente-se desfigurar deslizante, cada pequeno detalhe sempre esquecido da casa se mostrando grandioso em sua sutil inutilidade. Ah, as cores, as diretrizes. Uma athena acomodada, mulher da paz e da poesia, ha, quase uma perséfone assustada. Tece, desde sempre, os mesmos véus. Quando matéria precisa sempre deles: eles a constituem, lhe dão a sustância para ocupar lugar no espaço. Não fosse isso, ah, seria apenas tempo, e tempo sem lugar algum como um eterno flainar. Suspiro.

É outono. Quando o verão se despede e Rimbaud canta o inferno. Quando o céu de mais azul parece sempre prestes a desabar em lágrimas, e há tantos pássaros de dia que não temem mais derreter sua cera. Um vento constante porém suave, as formigas levantando seu estoque, o sol como puro deleite. E o que faz?

Senta-se sob o peitoril, mal o sente gelado como o sentira outrora, está mais leve, perde em si em densidade mas afasta-se ao mesmo tempo da leveza. Quando sutil, mescla-se mesmo ao azul, enfim céu. Mas é terra vermelha, úmida e voraz quando esquece ou quando se lembra demais, presença-ausência de tudo que não poderia ser tão etéreo: sente saudades, então. Do céu, presença doce, terra fria e quase insana, mas ainda ela, e não essa maldita presença-ausência. Lembra, sim, mas lembra tentando esquecer: Um pintor sempre pinta o próprio retrato, diz Cocteau, mas já faz tanto tempo, poderíamos ter sido pessoas diferentes, vítimas do afeto e não do conhecimento, ah, do conhecimento e não do afeto, mas seremos desde sempre os mesmos medos, as mesmas e covardes buscas egóicas. Um suspiro, um lamento. Mesmo sem véus, enfim, porque nunca poderia ser e não ser sua ausência. Pensa em jogos, magias e feitiços, pensa em doces plenos que se come na infância, em açúcar e prazeres, porque raios a vida não podia ser leve? Uma athena emburrada, uma pandora agoniada, uma perséfone de mãos dadas com rimbaud. Hunf, mas era tudo mesmo mentira, deuses sempre mentem mesmo vorazes, ah, era tudo tão mentira que poderia mesmo ser verdade.

Dialetos que ninguém mais fala.

Suspiro, doce de criança. O avô ou a avó colocando para assar? A mãe põe sobre a torta. Mas a menina sempre quer mais, sempre lambe os dedos com o olhar insatisfeito extravasando os demais sentidos. Os amigos imaginários vão embora, ela cresce e vai para a banheira. Vida morna, banho quente, as vezes um vento bravo jogando tudo pelos os ares, as vezes a calma dos dias dourados. Um peixe.

Come, porque não tem a menor sutileza de observar. Precisa do que é intenso e na pretensa intensidade põe perdido tudo que é sutil e que talvez a fizesse enfim livre –ah, hino à liberdade tão (mal) falada! Mas é muito véu, matéria, e sabemos que ela não sabe como ser fluida sem ser abocanhada pelas perícias laborais do tempo. Ópio, o açúcar dos jovens. Mas já faz tanto tempo! Acorda, por vezes, entre dias calmos e cinzas, entre o que poderia ter sido e o que jamais será. Entorpecida, a cabeça emerge da água. As pálpebras relaxam, olha uma vez mais a mão, mas agora as palmas, vê as linhas que formam círculos, quase espirais, perde-se a vista do quanto precisaria andar, põe-se novamente em véus. É preciso tentar sempre, pensa, mas o Forte não tenta jamais. Bate a porta. Olha o espelho mas não pode mais ver seu rosto: em algum pólo submerso de sua ausência, constata apenas um buraco denso e negro a drenando cada vez mais voraz para seu sem-si - toda e qualquer possibilidade de existência.

(...)

Algo me impeliu a isso. Como sempre, apenas vislumbro os motivos. Experimento, entre brusco e suavemente mas sempre beirando aquela insanidade quase sadia.

Sirva-se a vontade.