(As flores do lago e o buraco do espelho: a tentativa de transcender a metafísica barata das salas de espera e dos hospitais psiquiátricos através da mais intrínseca realidade paralela)
E todo um blá blá blá cheio da própria metafísica barata. Eugênio, o bravo, entrou no bar. Como de costume, pediu aquela mesma dose, a mesma marca, cor. Sentou-se no mesmo banco que sentava-se tinha dias. Escrever é um ato de imanência, pensamos, eu e ele. Ele, instável, sentado estavelmente em um banco duro. Seria aquele realmente o modo mais elegante de sua vida? O líquido marrom sangueado, o amargo na garganta, nuca, olhos, talvez na lembrança.
Ela.
Estaria ela ainda no mesmo sofá? Branco, cor de sangue. Ela, espera.
O que veria quando acordasse? Como um sonho, sua realidade estava prestes a se fragmentar nos véus: jamais encontraria sentido depois. Fazia tanta diferença assim?
O dia, amanhecendo com o sabor aromático da aurora. A noite, pálida, surgindo nos dias passando: calor do tempo que submetia a tudo. E ela. Ainda, esperando, a grande ruptura: no vácuo, a ausência completa dos seus sentidos... espera... Eugênio vislumbrava ainda seus ruivos pelos púbicos, esperando a imagem se acalmar naturalmente: não queria que seu querer se intrometesse na imagem. Fez isso durante anos de sua vida e nunca funcionou - tampouco esperava que funcionasse agora, mas continuava, como um menino obediente ao molhar com cuidado os lábios na sopa quente.
As vezes sinto que só me resta a solidão incerta de meu último grito. Quando eu não posso chove e quando eu posso as coisas nunca fazem sentido. Eugênio pensando.
Num repente, come agora seu próprio grito: ela se levantara, ele tinha certeza. Andava semi nua entre os móveis, tinha certeza, ela andava, agora rumo ao banheiro, um tanto zonza pelo efeito do narcótico, tateando mentalmente a si mesma. Um buraco no meio do espelho, a mesma dose de sempre, sempre mais, sempre mais, Eugênio, o bravo herói da primavera fatídica que se desdobrou por noites a fio. Sem um menor ruído o sangue, o pus, a lama e o prédio abaixo: com o maior estrondo do mundo, ela semi nua volta ao sofá. Não, ela estava apenas sonhando em se mover: o buraco do espelho se movendo com ela.
Uísque no bar
Cocaína e amargo
Uma tentativa mais
Ligaria?
Esperaria ela pelo final?
Sem mais nada, Eugênio paga pela sua dose e irrompe, o fora: precisava apenas de ar. As ruas beira-mar frias, embora aparentemente agradáveis aos passantes, pareciam sempre prontas a lhe rejeitar. Um grupo de jovens brincando nos trapiches e nas estátuas. Droga, mais uma noite. Sereno, galpões de hotéis. Piano e músicas sutis.
Ela...agora então entre o sofá e o buraco: entre a sanidade e a transcendência a todo e qualquer tipo de juízo: é claro que ela não vai mais voltar.
O vermelho de seus pelos púbicos, o gosto de sexo presente desde sempre nos lábios quentes e vermelhos, o vermelho de sua face, cabelos, olhos, ela e o mais constante e esmagador vermelho que se poderia imaginar: jamais foi um céu azul.
Eles não tardarão a abrir a porta.
Ela chorará? Partirá ao meio? Amaldiçoará talvez, com sua voz áspera e severa: mas senil. Cada vez mais senil, ah, como isso pode ser irritante, ela não pode, é isso: ela simplesmente não pode, e não poderá então nunca: é esse o preço, o preço dela, que ela pagou. A escolha é dela, dela, só dela. Não, não minha, Eugênio, nunca: a culpa o preço a carga a responsabilidade é só dela. O uísque, o isqueiro vermelho em cima do balcão, raios, o mundo todo parece vermelho agora. E eles não tardarão. E se ele corresse? Mas não havia voltas. O diagnóstico seria feito de qualquer maneira: o mundo saberia, afinal. Todos eles. E só restaria então para ela sua cor, como pano de fundo e mobília. Mas raios, ela lembraria, saberia? Não, é preciso se conformar, não mais existirá “ela”, ela se fundirá para sempre em um mundo de relações possíveis, e cada vez mais, até o sempre, diluída numa massa de tons vermelhos se tornando cada vez mais homogênea, até o nunca, seu próprio mundo.
Remédios, ela encontrará alívio? Redenção?
Eugênio para e pensa, gira o líquido no copo, quase bebe, para, bebe: como reagirá a sua visita? Será hostil? Não, é preciso se conformar: não haverá mais ela.
Entre o sofá e o buraco do espelho: entre a cama e o hospital, o mundo e o berço, o asilo de leprosos e a mais sórdida blasfêmia que a mente humana pôde imaginar, loucura, porque tens tais faces? Raios, é preciso tentar sempre: mas o forte se conforma. E antes mesmo de raiar o dia Eugênio volta ao apartamento. Centrímetos em deslocamento espacial dos objetos indicariam algo como uma pequena porém resignada resistência. Sangue no chão do banheiro e o espelho enfim quebrado: a banheira cheia de água limpa, um banho que não aconteceu?
O telefone toca, sua voz rouca e doída: ela existia ainda? Não, foi apenas um sonho. E como um surto ele também pôde perceber que não importava o quanto estava livre: também para ele a realidade não fazia nenhum sentido. Porque haveria ela quebrado o espelho antes de partir? Um ato último de revolta?
Trêmulo, o forte vai até o espelho e não vê o rosto, o buraco ou o vazio, mas apenas a si mesmo. Contendo-se para não explodir, sente subindo do estomago a mais visceral e fatídica onda de riso: um riso incontido, doído, trêmulo e libertador, insano. Insano, o forte ria e do seu riso toda a realidade também se fragmentou: era preciso rir mais alto, com fúria, era preciso com seu riso destruir as paredes e degolar vizinhos, os cães, os fortes. E através de seu riso toda a loucura de Ofélia também fazia sentido, pois era a sua loucura, sempre foi sua, talvez apenas sua.
Há mesmo de se ser muito Forte.
2 comentários:
Caralho, que testo foda, Marina!! Parabéns...adorei!!
Beijão!
Ai! TeSto doeu, hein...perdoem este ser humano descuidado...
Repetindo o comentário com a ortografia correta desta vez pelo amor de são danoninho com aspargos!
Caralho, que texto foda, Marina!! Parabéns...adorei!!
Beijão!
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