Bate a porta. Distante, despe-se imersa em si; lenta e quase covarde despe-se de cada um dos véus. A água morna, um pássaro sempre longe demais: assistira antes do começo o fim do filme, e algo estava confuso demais até para o não ter mais sentido. Com a ponta dos pés experimenta a água, água quente, conforto e debilidade. Despe-se por fim do último véu: imerge.
Submerge, os olhos fechados firmes como criança, a cabeça para trás num mergulho denso. Os dedos das mãos sobre as águas, quantas formas, quantas se pode ter, quantidades, sim, razão e quantidades: e, no entanto, que é ela, senão pura espera? Uma pandora assustada, como outra qualquer. Mesmo se em tantos véus.
Bate a porta. Um ruído, um gato esgueirando-se pelas frestas desde sempre. Dias sem vontade, dor muda e opaca, mas desde sempre presente: não podia, sabia, sempre soube. Não podia mais estar a mercê de um sorriso. Tinha sonhos bonitos, as vezes, quando podia enfim ser livre, quando podia ser quase sem véus. Quase sem nenhum véu. Um tiro ao fundo, a noite acontecendo em todos os lugares, em todas as frestas de gatos e coisas, e coisas que nunca se mexem, e coisas que embora existam nunca acontecem, mas, acima de tudo, essa falta, a presença inerte de uma ausência. Droga, mesmo sem os véus, mesmo sem as tipóias, mesmo em nada, vazio-preenchimento de danaides. Preciso me livrar dos mitos.
Na estante, uma athena furiosa, mulher da guerra e da ciência, esquecida, prestes a sucumbir frente as cores da caixa recém aberta. Uma ou outra minerva prestes a explodir, tristes canções que vão sendo apagadas, uma historia toda eternamente por ser feita e já vindo assim, tão mal-acabada! Ela colocaria de novo cada letra no seu lugar, arrumaria todas na estante dos saberes inúteis que são feitos para se renovar sempre, sim, ela poderia continuar para sempre arrumando as coisas que precisam ser arrumadas, limparia sempre o redemoinho das cores, ah, bem que existir poderia não ser tanta bagunça! Presença assexuada na sala, um sapo-rã se arrasta, enfim: é um conto de fadas. Transborda com a água para longe, sente-se desfigurar deslizante, cada pequeno detalhe sempre esquecido da casa se mostrando grandioso em sua sutil inutilidade. Ah, as cores, as diretrizes. Uma athena acomodada, mulher da paz e da poesia, ha, quase uma perséfone assustada. Tece, desde sempre, os mesmos véus. Quando matéria precisa sempre deles: eles a constituem, lhe dão a sustância para ocupar lugar no espaço. Não fosse isso, ah, seria apenas tempo, e tempo sem lugar algum como um eterno flainar. Suspiro.
É outono. Quando o verão se despede e Rimbaud canta o inferno. Quando o céu de mais azul parece sempre prestes a desabar em lágrimas, e há tantos pássaros de dia que não temem mais derreter sua cera. Um vento constante porém suave, as formigas levantando seu estoque, o sol como puro deleite. E o que faz?
Senta-se sob o peitoril, mal o sente gelado como o sentira outrora, está mais leve, perde em si em densidade mas afasta-se ao mesmo tempo da leveza. Quando sutil, mescla-se mesmo ao azul, enfim céu. Mas é terra vermelha, úmida e voraz quando esquece ou quando se lembra demais, presença-ausência de tudo que não poderia ser tão etéreo: sente saudades, então. Do céu, presença doce, terra fria e quase insana, mas ainda ela, e não essa maldita presença-ausência. Lembra, sim, mas lembra tentando esquecer: Um pintor sempre pinta o próprio retrato, diz Cocteau, mas já faz tanto tempo, poderíamos ter sido pessoas diferentes, vítimas do afeto e não do conhecimento, ah, do conhecimento e não do afeto, mas seremos desde sempre os mesmos medos, as mesmas e covardes buscas egóicas. Um suspiro, um lamento. Mesmo sem véus, enfim, porque nunca poderia ser e não ser sua ausência. Pensa em jogos, magias e feitiços, pensa em doces plenos que se come na infância, em açúcar e prazeres, porque raios a vida não podia ser leve? Uma athena emburrada, uma pandora agoniada, uma perséfone de mãos dadas com rimbaud. Hunf, mas era tudo mesmo mentira, deuses sempre mentem mesmo vorazes, ah, era tudo tão mentira que poderia mesmo ser verdade.
Dialetos que ninguém mais fala.
Suspiro, doce de criança. O avô ou a avó colocando para assar? A mãe põe sobre a torta. Mas a menina sempre quer mais, sempre lambe os dedos com o olhar insatisfeito extravasando os demais sentidos. Os amigos imaginários vão embora, ela cresce e vai para a banheira. Vida morna, banho quente, as vezes um vento bravo jogando tudo pelos os ares, as vezes a calma dos dias dourados. Um peixe.
Come, porque não tem a menor sutileza de observar. Precisa do que é intenso e na pretensa intensidade põe perdido tudo que é sutil e que talvez a fizesse enfim livre –ah, hino à liberdade tão (mal) falada! Mas é muito véu, matéria, e sabemos que ela não sabe como ser fluida sem ser abocanhada pelas perícias laborais do tempo. Ópio, o açúcar dos jovens. Mas já faz tanto tempo! Acorda, por vezes, entre dias calmos e cinzas, entre o que poderia ter sido e o que jamais será. Entorpecida, a cabeça emerge da água. As pálpebras relaxam, olha uma vez mais a mão, mas agora as palmas, vê as linhas que formam círculos, quase espirais, perde-se a vista do quanto precisaria andar, põe-se novamente em véus. É preciso tentar sempre, pensa, mas o Forte não tenta jamais. Bate a porta. Olha o espelho mas não pode mais ver seu rosto: em algum pólo submerso de sua ausência, constata apenas um buraco denso e negro a drenando cada vez mais voraz para seu sem-si - toda e qualquer possibilidade de existência.
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