Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

A menina do sótão encantado (ou Uma versão masculina sobre o que aconteceu com Alice Ou ainda Um Ode à Clarice)

I

Chove. Por detrás das espessas paredes que separam os corpos que jamais virão a ser novamente, por dentro de onde jamais se proclamam os nomes, dentro, onde não importa quão fria sejam as paredes, por detrás de todos os muros e véus: era exatamente lá onde ela costumava brincar. Não se importava que ninguém a visse nunca, escapava escorregadia de qualquer tentativa de que a tocassem: sabia, enfim, que nascera para uma espécie de existência plena demais para ser notada. Valsava com desenvoltura entre os cânones mais secretos e era sem o menor sacrifício que proclamava, ao mundo, um quente e constante “não”. Dissera não, eis tudo, eis onde se reside toda sua história: em um não tão repleto de possibilidades escondidas que as pessoas que diziam um opaco sim jamais poderiam entender. Intensidades marcantes, superfícies nostálgicas, um mundo todo novo repleto de afazeres e escolhas, um mundo cheio de lugares mágicos e assustadores, talvez: mas um não, um sonoro e fatídico não, repousava sempre sob sua cabeça, como uma sentença a lhe ser lembrada sempre, até que estivesse enfim tão dentro, tão nela, que não se pudesse mais confundir o que era o não e o que era ela.

Descobriu um sótão com vistas para a praça onde observava as crianças brincar, sem desejo ou desprezo, apenas com uma curiosidade infantil de saber como nascem as teias. Sabia então que o mundo não era esse que lhe mostravam, era o outro, aquele que nunca é revelado, e que as coisas todas acontecem em um lugar de acesso negado para os que dizem sim. Existem lugares específicos para cada escolha e se na escola brincava docemente entre algumas crianças era apenas para que continuasse em segredo, que continuasse salva: pressentia então o que o mundo do sim era capaz de fazer com os que dizem não tão fortemente. Fazia os deveres com calma e obediência e jamais deixava de amarrar bem os sapatos, guiada por uma responsabilidade assustadora para sua idade: precisava sempre salvar um mundo. As vezes pensava que talvez o mundo mesmo, esse compartilhado pelas pessoas todas, dependia de esforços assim para ser salvo, talvez ela fosse como uma espécie de pilar que sustentava o mundo em seu lugar, talvez houvessem em cada país uma pessoa do não que sustentava sem o menor esforço todo o engodo de um pesado mundo. Não, não acreditava realmente nisso, era profunda demais para pensamentos ralos que apenas existem para divertir, aprendera isso também: que precisamos todos, mesmo quem diz não, de pensamentos meramente divertidos para que não se corra o risco de os pensamentos mais sérios não passar a diverti-nos apenas.

Diverti-nos apenas.

Onde o mundo acontece, onde as coisas se dão e onde não temos o menor acesso: por dentro de toda uma engrenagem de micro-acontecimentos e causas, nas vísceras sistêmicas dos processos cumulativos, ah, um sistema tão ínfimo e complexo que daria inveja aos físicos nucleares. Faria diferença, um dia, se as coisas... esquece-se as vezes, os pensamento se mesclam de tal forma que sem se atropelarem, entretanto consomem-se: as vezes era preciso reclamar a velha estética da poesia das coisas. Porque sem ela nenhum “não” poderia fazer sentido.



Ainda menina descobriu que de seus dedos saiam palavras mágicas. Divertia-se com a quantidade de pensamentos que podia formar com seus pequenos dedos, encantava-se com a assustadora fonte de verdades que encontrara, mas sobretudo assustava-se: deixava provas de seu crime e no entanto não podia se conter. Achou descobrir o que sentiam os assassinos quando deixavam aquelas pistas ridículas, coisa que jamais conseguira entender, mas agora sabia, eles não tinham escolhas, estavam submetidos à uma vontade maior e incontrolável. Crimes desvendados, crianças sujas brincando de taco no pôr-do-sol, sensação de nenhum dever, nenhum grande peso, nenhum mistério, um mundo simplesmente dado: como seria?

O pensamento de que poderia saber um dia, que poderia decair de seu mundo secreto e cair na grande máquina homogeneizante lhe assustava: seria isso o grande salto para a vida adulta? Que os que conseguem burlar o sim e ousam criar um mundo próprio acabam sucumbindo irremediavelmente?

Dedicou-se a procura de adultos que aparentemente não tivessem sido tragados. Definitivamente não poderia estar falando de seus pais ou professores, mas não sabia onde procurá-los. Mundo, criação, heróis e grandes feitos, mas nada, precisava de pessoas que tivessem sentido, que tivessem construído, mesmo contra tudo, sua própria verdade. Esse ciclo de pensamento a aterrorizou até mais ou menos o início da adolescência, quando de repente, como mágica, um livro caiu em suas mãos. Sim, poderia ser salva, enfim, tinham sobrevivido antes e ela também poderia. Poderia mesmo trabalhar, casar, ter filhos ou qualquer outra coisa assustadoramente banal, nada disso a impediria de ser uma grande mulher. Folheava as páginas com mistura de alívio e sofreguidão, uma tal de Clarice, sim, uma tal assim lhe salvava agora. Precisava mesmo ser salva, e eis que vive de novo. Não tardou que outros nomes da literatura afirmassem sua redenção, sentia entre eles uma espécie de cumplicidade que jamais sentira até então. Mas era de matéria muito rala e, flutuante, também essa cumplicidade lhe parecia mundana demais para sua leveza. Já estava salva, não precisava agora se redimir, isso acabaria a subjugando, não, era preciso continuar com o “não”. E foi mais ou menos por essa época que ela e o não se fundiram irremediavelmente.

II

Quando menina, brincava de bola. Moça, se olha no espelho e não entende porque raios a palavra barriga não tem mais o mesmo significado. Das vísceras à estética, da poesia à bulimia, a vida é assim. Pega o vinil, lembra do player, os fones pegos pela professora em sala de aula, e o menino que mal a amava assim, olhando sem nada querer. Pensava as aulas de piano, pensava então poder ser grande, talvez mesmo uma estrela.

Pensa, explode, enquanto bebe de sua mais doce gasolina.

Devagar escorrega, para e pensa mais uma vez por de onde, por detrás de que cortinas foi assim em se perder. Em tanto, em tão pouco, assim, gosto azedo na boca, vontade de sentir um gosto amargo, súbito, uma vontade, mastigar boldo, mastigar tanto até seu estômago revirar, sim, as vísceras, mastigar tanto ao ponto de não mais poder lembrar nem esquecer, mastigar as folhas amargas com tamanha fúria como se a si mesma mastigasse: lembrar.

Foi um não sonoro que saiu, não as vísceras, enfim.

III

Ela nasce, assim, e é tanto minha quanto sou dela: nos pertencemos e nada sabemos sobre nós. Mal nos tocamos, não nos sabemos, coloco em mim características dela e nela características minhas, procuro nos fundir ao ponto de nos esquecer e que isso possa ser também algo parecido com um perdão. Mas é preciso calma sempre, é preciso mesmo um segredo que nos redima: ela não é Ângela, e tampouco sou um narrador em busca de salvação. Nada somos, ela nasce em Clarice, Clarice a mata, sem sombra de dúvidas, Clarice a mata a frias punhaladas, duras, cruas, claricianas. Ela, que podia ser também uma estrela, ela, que podia ser também..., ela que podia ser um sim. Mas é não. “Quem ama a solidão não pode amar a liberdade”, diz Clarice, em um ode à um libertador SIM, e não vemos assim que sim e não são exatamente a mesma resposta, precisamos salvar nossas vidas com tamanha fúria que não vemos que qualquer ‘sim’ ou ‘não’ não prende nem liberta. Por isso Clarice precisa do sopro. Por isso nasce Ângela, Clarice precisa de alguém para redimi-la.

IV

Por dentro, por fora, escolhas: Ângela escolhe o sim, Alice escolhe o não e cria um mundo a parte: tão maravilhosas quanto em Caroll, suas maravilhas perdem no entanto em sutileza: destroem, enfim, porque nascem de um não, daquele não sonoro e fatídico sob sua cabeça, lápide e pano de fundo. Porque querer, porque perdoar, porque esquecer?

Também preciso de alguém que me redima.

V

Chove, e a cortina amarelada balança suave com o vento sul que permeia a vida dos ilhéus. Um ou outro pássaro morre, um ou outro passante passa, uma ou outra palavra é escrita. Alice, moça, decidiu que seu céu seria lilás depois de as encherem com as verdades mundanas, de lhe dizerem cem vezes que o céu não é azul, que é pela coloração dos gases. Decidiu-se então pelo lilás - teria mesmo que inventar uma nova cor um dia. Jamais seria em vermelho, talvez jamais fosse em nada, talvez fosse para sempre um sótão cheio de velharias e umidade, criada a própria imagem a partir de espelhos quebrados: mas o reverso da poesia é ainda a poesia, e sua ruína é tão bela quanto suas graças. Ela ri-se ensimesmada. A fiz perder o controle certa vez, a entregar suas graças e suas sabedorias à um mundo alucinado e infantil: a redimo agora, a ensino os trejeitos e os jeitos todos, acho que a ensino, mas é ela quem aprende: Alice passou a ver o mundo com os próprios olhos, liberta de mim e de minhas vontades. Mas o reverso do reverso é ainda um reverso, e Alice se salva mesmo quando não quero mais.

Foi quando adulta que decidiu que estava pronta e se debruçou durante dias entre as estantes e devorou tudo quanto pôde encontrar: pesava, não podia deixar de pesar, mas achava então que estava pronta para lidar com os pesos e demais dissabores da vida. Com tudo se jogava com toda a intensidade, mas preferia ainda se jogar nos dissabores, queria a todo custo testar sua força, e sabia, enfim, que proteger-se é sempre defesa e quem se defende são os fracos. E foi por causa dos fracos que Nietszche foi a ela, devorado vorazmente como se fosse estrela. Lambuzou-se com Kafka e Rimbaud e por fim conheceu a destreza afoita dos versos descasados da prostituta que vivia sempre à espera. E foi mais ou menos por essa época que o não passou a vazar pelas arestas.

Deve ter sido num desses dias de domingos claros e bonitos, quando a palidez austera dos descendentes de austríacos fica mais notável e as pessoas flutuam em ondas de extremo pesar: Kundera morreria se não pesasse, afundaria se não flutuasse, e a palidez caótica dos sinos de domingos penetrava em cada poro, em cada gotícula de suor de leito honesto e gasoso. As crianças, as bolas.

Quando menina brincara de bola, sozinha, batendo-a não sei quantas vezes nas paredes da casa. O corredor virava quadra, as paredes todas marcadas, ah, menina, porque não vai brincar lá fora com as crianças? Porque é sempre aqui dentro que posso ouvir meus sussurros.

Por todas as arestas não, apenas por uma. Desejo, fino e desenfreado, que a tudo consumia com orgulho e voracidade. Desejo de vida, enfim, confundindo os nãos e as liberdades. Porque sim, é um caminho, porque não, é uma escolha, e entre caminhos e escolhas ela ousava: decidir entre os caminhos e caminhar entre as escolhas. Em tudo se jogava com quase afoita intensidade, queria conhecer cada minúscula parte tanto do desejo quanto da angústia. Talvez fosse mais, um dia, uma estrela: quando menina queria tocar o céu e virar estrela, quando moça cuidava do nariz e em meter a mão onde lhe aprouvesse, e, entretanto, havia uma coloração que parecia descuidar, uma coloração azul-petróleo com suaves tons de cinzas dançantes. Pasolini e Tim Burton, cinema nacional e uma bomba de Hollywood, pensamentos de pensar, pensamentos de divertir. Jazz.

VI

Figuras dançantes, uma música, um convite: um telefone que toca, um rosto que se vai, a vida mesmo em pequenos conjuntos de adeus. Mais um rosto que se vai, e todos os outros que se dissolvem com tanta facilidade que soa quase doce, sim, é com quase doçura que os gostos mais amargos se instalam e se aconchegam em seu colo, um regalo sempre pronto a receber do que a vida lhe dispusesse a criar: acima de tudo criar. O “não” não é apenas uma escolha, não é apenas um ato de revolta: o não como possibilidade materializada de criar, de ir a fundo e do caos completo voltar sôfrega, suada, mas com estrelas entre os dentes. Estrelas, gosto nos lábios de poeira estelar, gosto da vida densa descendo pela garganta e penetrando todos seus poros e minúcias. Um não que de tão intenso se mescla ao sim, à todas as possibilidades, um não-sim não sei do quê: Alice não me conta mais nada.

Domingo, 27 de Abril de 2008

um

(As flores do lago e o buraco do espelho: a tentativa de transcender a metafísica barata das salas de espera e dos hospitais psiquiátricos através da mais intrínseca realidade paralela)

E todo um blá blá blá cheio da própria metafísica barata. Eugênio, o bravo, entrou no bar. Como de costume, pediu aquela mesma dose, a mesma marca, cor. Sentou-se no mesmo banco que sentava-se tinha dias. Escrever é um ato de imanência, pensamos, eu e ele. Ele, instável, sentado estavelmente em um banco duro. Seria aquele realmente o modo mais elegante de sua vida? O líquido marrom sangueado, o amargo na garganta, nuca, olhos, talvez na lembrança.

Ela.

Estaria ela ainda no mesmo sofá? Branco, cor de sangue. Ela, espera.

O que veria quando acordasse? Como um sonho, sua realidade estava prestes a se fragmentar nos véus: jamais encontraria sentido depois. Fazia tanta diferença assim?

O dia, amanhecendo com o sabor aromático da aurora. A noite, pálida, surgindo nos dias passando: calor do tempo que submetia a tudo. E ela. Ainda, esperando, a grande ruptura: no vácuo, a ausência completa dos seus sentidos... espera... Eugênio vislumbrava ainda seus ruivos pelos púbicos, esperando a imagem se acalmar naturalmente: não queria que seu querer se intrometesse na imagem. Fez isso durante anos de sua vida e nunca funcionou - tampouco esperava que funcionasse agora, mas continuava, como um menino obediente ao molhar com cuidado os lábios na sopa quente.

As vezes sinto que só me resta a solidão incerta de meu último grito. Quando eu não posso chove e quando eu posso as coisas nunca fazem sentido. Eugênio pensando.

Num repente, come agora seu próprio grito: ela se levantara, ele tinha certeza. Andava semi nua entre os móveis, tinha certeza, ela andava, agora rumo ao banheiro, um tanto zonza pelo efeito do narcótico, tateando mentalmente a si mesma. Um buraco no meio do espelho, a mesma dose de sempre, sempre mais, sempre mais, Eugênio, o bravo herói da primavera fatídica que se desdobrou por noites a fio. Sem um menor ruído o sangue, o pus, a lama e o prédio abaixo: com o maior estrondo do mundo, ela semi nua volta ao sofá. Não, ela estava apenas sonhando em se mover: o buraco do espelho se movendo com ela.

Uísque no bar

Cocaína e amargo

Uma tentativa mais

Ligaria?

Esperaria ela pelo final?

Sem mais nada, Eugênio paga pela sua dose e irrompe, o fora: precisava apenas de ar. As ruas beira-mar frias, embora aparentemente agradáveis aos passantes, pareciam sempre prontas a lhe rejeitar. Um grupo de jovens brincando nos trapiches e nas estátuas. Droga, mais uma noite. Sereno, galpões de hotéis. Piano e músicas sutis.

Ela...agora então entre o sofá e o buraco: entre a sanidade e a transcendência a todo e qualquer tipo de juízo: é claro que ela não vai mais voltar.

O vermelho de seus pelos púbicos, o gosto de sexo presente desde sempre nos lábios quentes e vermelhos, o vermelho de sua face, cabelos, olhos, ela e o mais constante e esmagador vermelho que se poderia imaginar: jamais foi um céu azul.

Eles não tardarão a abrir a porta.

Ela chorará? Partirá ao meio? Amaldiçoará talvez, com sua voz áspera e severa: mas senil. Cada vez mais senil, ah, como isso pode ser irritante, ela não pode, é isso: ela simplesmente não pode, e não poderá então nunca: é esse o preço, o preço dela, que ela pagou. A escolha é dela, dela, só dela. Não, não minha, Eugênio, nunca: a culpa o preço a carga a responsabilidade é só dela. O uísque, o isqueiro vermelho em cima do balcão, raios, o mundo todo parece vermelho agora. E eles não tardarão. E se ele corresse? Mas não havia voltas. O diagnóstico seria feito de qualquer maneira: o mundo saberia, afinal. Todos eles. E só restaria então para ela sua cor, como pano de fundo e mobília. Mas raios, ela lembraria, saberia? Não, é preciso se conformar, não mais existirá “ela”, ela se fundirá para sempre em um mundo de relações possíveis, e cada vez mais, até o sempre, diluída numa massa de tons vermelhos se tornando cada vez mais homogênea, até o nunca, seu próprio mundo.

Remédios, ela encontrará alívio? Redenção?

Eugênio para e pensa, gira o líquido no copo, quase bebe, para, bebe: como reagirá a sua visita? Será hostil? Não, é preciso se conformar: não haverá mais ela.


Entre o sofá e o buraco do espelho: entre a cama e o hospital, o mundo e o berço, o asilo de leprosos e a mais sórdida blasfêmia que a mente humana pôde imaginar, loucura, porque tens tais faces? Raios, é preciso tentar sempre: mas o forte se conforma. E antes mesmo de raiar o dia Eugênio volta ao apartamento. Centrímetos em deslocamento espacial dos objetos indicariam algo como uma pequena porém resignada resistência. Sangue no chão do banheiro e o espelho enfim quebrado: a banheira cheia de água limpa, um banho que não aconteceu?

O telefone toca, sua voz rouca e doída: ela existia ainda? Não, foi apenas um sonho. E como um surto ele também pôde perceber que não importava o quanto estava livre: também para ele a realidade não fazia nenhum sentido. Porque haveria ela quebrado o espelho antes de partir? Um ato último de revolta?

Trêmulo, o forte vai até o espelho e não vê o rosto, o buraco ou o vazio, mas apenas a si mesmo. Contendo-se para não explodir, sente subindo do estomago a mais visceral e fatídica onda de riso: um riso incontido, doído, trêmulo e libertador, insano. Insano, o forte ria e do seu riso toda a realidade também se fragmentou: era preciso rir mais alto, com fúria, era preciso com seu riso destruir as paredes e degolar vizinhos, os cães, os fortes. E através de seu riso toda a loucura de Ofélia também fazia sentido, pois era a sua loucura, sempre foi sua, talvez apenas sua.


Há mesmo de se ser muito Forte.

Domingo, 6 de Abril de 2008

A metafísica de Ofélia (Um segredo muito mal vislumbrado)

Bate a porta. Distante, despe-se imersa em si; lenta e quase covarde despe-se de cada um dos véus. A água morna, um pássaro sempre longe demais: assistira antes do começo o fim do filme, e algo estava confuso demais até para o não ter mais sentido. Com a ponta dos pés experimenta a água, água quente, conforto e debilidade. Despe-se por fim do último véu: imerge.

Submerge, os olhos fechados firmes como criança, a cabeça para trás num mergulho denso. Os dedos das mãos sobre as águas, quantas formas, quantas se pode ter, quantidades, sim, razão e quantidades: e, no entanto, que é ela, senão pura espera? Uma pandora assustada, como outra qualquer. Mesmo se em tantos véus.

Bate a porta. Um ruído, um gato esgueirando-se pelas frestas desde sempre. Dias sem vontade, dor muda e opaca, mas desde sempre presente: não podia, sabia, sempre soube. Não podia mais estar a mercê de um sorriso. Tinha sonhos bonitos, as vezes, quando podia enfim ser livre, quando podia ser quase sem véus. Quase sem nenhum véu. Um tiro ao fundo, a noite acontecendo em todos os lugares, em todas as frestas de gatos e coisas, e coisas que nunca se mexem, e coisas que embora existam nunca acontecem, mas, acima de tudo, essa falta, a presença inerte de uma ausência. Droga, mesmo sem os véus, mesmo sem as tipóias, mesmo em nada, vazio-preenchimento de danaides. Preciso me livrar dos mitos.

Na estante, uma athena furiosa, mulher da guerra e da ciência, esquecida, prestes a sucumbir frente as cores da caixa recém aberta. Uma ou outra minerva prestes a explodir, tristes canções que vão sendo apagadas, uma historia toda eternamente por ser feita e já vindo assim, tão mal-acabada! Ela colocaria de novo cada letra no seu lugar, arrumaria todas na estante dos saberes inúteis que são feitos para se renovar sempre, sim, ela poderia continuar para sempre arrumando as coisas que precisam ser arrumadas, limparia sempre o redemoinho das cores, ah, bem que existir poderia não ser tanta bagunça! Presença assexuada na sala, um sapo-rã se arrasta, enfim: é um conto de fadas. Transborda com a água para longe, sente-se desfigurar deslizante, cada pequeno detalhe sempre esquecido da casa se mostrando grandioso em sua sutil inutilidade. Ah, as cores, as diretrizes. Uma athena acomodada, mulher da paz e da poesia, ha, quase uma perséfone assustada. Tece, desde sempre, os mesmos véus. Quando matéria precisa sempre deles: eles a constituem, lhe dão a sustância para ocupar lugar no espaço. Não fosse isso, ah, seria apenas tempo, e tempo sem lugar algum como um eterno flainar. Suspiro.

É outono. Quando o verão se despede e Rimbaud canta o inferno. Quando o céu de mais azul parece sempre prestes a desabar em lágrimas, e há tantos pássaros de dia que não temem mais derreter sua cera. Um vento constante porém suave, as formigas levantando seu estoque, o sol como puro deleite. E o que faz?

Senta-se sob o peitoril, mal o sente gelado como o sentira outrora, está mais leve, perde em si em densidade mas afasta-se ao mesmo tempo da leveza. Quando sutil, mescla-se mesmo ao azul, enfim céu. Mas é terra vermelha, úmida e voraz quando esquece ou quando se lembra demais, presença-ausência de tudo que não poderia ser tão etéreo: sente saudades, então. Do céu, presença doce, terra fria e quase insana, mas ainda ela, e não essa maldita presença-ausência. Lembra, sim, mas lembra tentando esquecer: Um pintor sempre pinta o próprio retrato, diz Cocteau, mas já faz tanto tempo, poderíamos ter sido pessoas diferentes, vítimas do afeto e não do conhecimento, ah, do conhecimento e não do afeto, mas seremos desde sempre os mesmos medos, as mesmas e covardes buscas egóicas. Um suspiro, um lamento. Mesmo sem véus, enfim, porque nunca poderia ser e não ser sua ausência. Pensa em jogos, magias e feitiços, pensa em doces plenos que se come na infância, em açúcar e prazeres, porque raios a vida não podia ser leve? Uma athena emburrada, uma pandora agoniada, uma perséfone de mãos dadas com rimbaud. Hunf, mas era tudo mesmo mentira, deuses sempre mentem mesmo vorazes, ah, era tudo tão mentira que poderia mesmo ser verdade.

Dialetos que ninguém mais fala.

Suspiro, doce de criança. O avô ou a avó colocando para assar? A mãe põe sobre a torta. Mas a menina sempre quer mais, sempre lambe os dedos com o olhar insatisfeito extravasando os demais sentidos. Os amigos imaginários vão embora, ela cresce e vai para a banheira. Vida morna, banho quente, as vezes um vento bravo jogando tudo pelos os ares, as vezes a calma dos dias dourados. Um peixe.

Come, porque não tem a menor sutileza de observar. Precisa do que é intenso e na pretensa intensidade põe perdido tudo que é sutil e que talvez a fizesse enfim livre –ah, hino à liberdade tão (mal) falada! Mas é muito véu, matéria, e sabemos que ela não sabe como ser fluida sem ser abocanhada pelas perícias laborais do tempo. Ópio, o açúcar dos jovens. Mas já faz tanto tempo! Acorda, por vezes, entre dias calmos e cinzas, entre o que poderia ter sido e o que jamais será. Entorpecida, a cabeça emerge da água. As pálpebras relaxam, olha uma vez mais a mão, mas agora as palmas, vê as linhas que formam círculos, quase espirais, perde-se a vista do quanto precisaria andar, põe-se novamente em véus. É preciso tentar sempre, pensa, mas o Forte não tenta jamais. Bate a porta. Olha o espelho mas não pode mais ver seu rosto: em algum pólo submerso de sua ausência, constata apenas um buraco denso e negro a drenando cada vez mais voraz para seu sem-si - toda e qualquer possibilidade de existência.

(...)

Algo me impeliu a isso. Como sempre, apenas vislumbro os motivos. Experimento, entre brusco e suavemente mas sempre beirando aquela insanidade quase sadia.

Sirva-se a vontade.